Imigração, violência e café: as marcas da guerra civil em El Salvador 

Carro passa com homem armado em Ataco, na rota das flores. Cidade é conhecida pelos murais pintados em paredes e casas nas ruas

A guerra civil foi nos anos 1980, mas deixou resquícios em El Salvador. É impressionante a quantidade de segurança privada armada nas ruas, e não qualquer arma. São escopetas, pistolas, nas portas de hotéis, lojas, estações de ônibus. O hábito virou natural desde o tempo em que milhares de salvadorenhos foram sequestrados e mortos pelo Exército e por guerrilhas. Muitos se exilaram nos EUA. Na época a ideia era fugir da violência. Hoje continuam migrando, também por violência, mas principalmente por pobreza. Um terço dos salvadorenhos vivem abaixo da linha da pobreza. E 20% do PIB do país é composto por remessas que os migrantes mandam dos EUA pra cá. Estão à frente do café, produto forte da economia local. Mas este está concentrado nas mãos de poucos. Os trabalhadores nas fincas ganham apenas um dólar por saca de café colhido, que pesa uns 11 quilos. E o lucro definitivamente não vai pro bolso deles. Não por acaso, o cenário é um dos maiores “expulsores”. Aproximadamente três milhões de salvadorenhos migrantes vivem nos EUA. Metade dos que vivem efetivamente em El Salvador, hoje com uma população de seis milhões de habitantes. Os salvadorenhos já são a terceira nacionalidade de migrantes latinos nos EUA, principalmente ilegais, depois de mexicanos e portorriquenhos. É outro mundo. Conhecemos um guia na rota das flores que resiste bravamente “ao outro lado”. Uma irmã mora nos EUA já há 17 anos. A maioria dos amigos dele também tentaram o sonho americano – muitos nunca chegaram. Outro irmão foi do Exército, hoje está na guerrilha – ainda existem grupos paramilitares, embora não exatamente do mesmo jeito que há 30 anos. Nosso guia tem 24 anos, não viveu a guerra civil. Mas assume que sua maior luta é sobreviver do turismo e ficar em El Salvador. Por enquanto, diz ser feliz guiando os turistas pelas cachoeiras e trilhas da rota das flores, sempre acompanhado de um cãozinho fiel. Nosso guia mede apenas pouco mais de 1,50m, mas é grande. 
Palavra do dia: chichipince. É uma flor local usada para cicatrizar machucados e, como chá, para curar “dor de ventre”. Segundo outra guia que nos acompanhou, o sabor é amargo. “Como tudo que envolve cura”, afirmou. “Amargo. Mas cura”. 

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